segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

HISTÓRIA DO CARNAVAL EM PADRE PARAÍSO.




Tudo se inicia em 1950. O rádio era o nosso principal veículo de comunicação. A imaginação de nosso povo viajava juntamente ao som do rádio onde se escutava noticiário político, esportivo, novelas, programas de auditórios realizados ao vivo, etc... É neste período, ao som do REPÓRTER ESSO, da Rádio nacional que o nosso povo acompanhou a perca da copa do mundo pela seleção Brasileira em 1950 para o Uruguai, em pleno Maracanã, a volta de Vargas ao poder e a tragédia pessoal desse presidente que finaliza a carreira política com um suicídio em Agosto de 1954. Quatro anos após, a seleção brasileira conquista o campeonato Mundial pela primeira vez, em 1958 na suíça. Pelé aos 17 anos torna-se conhecido mundialmente.

As marchinhas de carnaval entravam suavemente no inconsciente das pessoas, dando-lhes um contorno poético e artístico, permitindo que saísse da alma de todos como um vulcão em erupção , esse prazeroso ritmo de Carnaval que semelhantes as ondulações de nossas montanhas retratava a época a vida social, cultural e romântica de Águas Vermelhas, hoje Padre Paraíso.

Em 1950, os carnavalescos, coordenados pelo mestre Capiano, Duda de Belarmino, Antônio Pereira Duarte (Antônio de Dudu), Moreno, Agenor Sapateiro, Gaudêncio, Cândido Cruteiro, o grande sanfonista Suva, Antônio Pé de Chola, faziam de Água Vermelha (Padre Paraíso) um espaço de alegria e entusiasmo, referendando por aqui a mesma euforia encontrada no espírito brasileiro na década de 50.

Em 1954, constituiu-se com a iniciativa, o mestre Capiano, incluindo novos personagens nesse processo: Olímpio Dentista, Antônio Xó, Anésio sapateiro, José Mascate que chegou a Águas Vermelha (Padre Paraíso) nesta época.

Em 1956 chegou a nossa cidade o carnavalesco Manchinha (Delviro José da Silva), com a sua mulinha, que encantava a todos com o seu estilo irreverente e entusiasta. A Mulinha virou sucesso e não se pode falar hoje da história do Carnaval de Padre Paraíso sem não falar da mulinha do Manchinha. 

Neste ambiente de alegria e de busca de entretenimento, o senhor José Mascate, fundou em nosso meio um espaço dançante denominado de Palmeiras, que se localizava aonde é hoje a Rua Santa Luzia, denominada à época de Pampeiro  que foi o espaço aonde funcionou a primeira zona boêmia da nossa antiga Água Vermelha. 

Os ilustres frequentadores desse ambiente, à época eram: Tó Botelho, Plastim, (o ex goleiro do antigo time de futebol O Rodoviário, chamado por todos de Bode), Zé Pretinho, memorável craque de futebol, que comovia o público futebolista da época com a sua extraordinária habilidade, João Felpudo (Fantástico ponta direita que jogou por muitos anos num outro respeitável time de futebol, o Paraíso Esporte Clube).

Dois times de futebol se destacaram na década de 60 em nosso meio: o Rodoviário que era chamado por todos também de Bode Verde. O time era uma homenagem às inúmeras pessoas que trabalhavam na companhia que construía a Rodovia BR 116 e de pessoas que moravam ou que eram ligadas ao DNER, como Zé Calango e outros. 

Daí o nome Rodoviário. O Técnico desse time à época, era o Sr. Geraldo Zagalo e posteriormente o Sr. Liô do DNER. O Apelido Bode Verde é uma alusão a uma pinga existente à época, muito consumida e degusta pelos jogadores após as partidas de futebol chamada ironicamente também de incha pé.

O outro time denominado de Padre Paraíso Esporte Clube, foi uma alusão e homenagem ao recente município criado que, de Água Vermelha, quando distrito, passa a se chamar Padre Paraíso. Daí o nome Paraíso para designar o time de futebol. Os responsáveis por esse time foram: Zequinha Lopes e Moreno, etc...

Assim, percebe-se que a junção cultural entre o Carnaval e o Futebol que entrou de forma sutil no imaginário da cultura popular brasileira já se fazia presente, também, na alma do povo de nossa amável Água Vermelha que hoje chamamos de Padre Paraíso. Além dos desportistas, não podemos esquecer-nos de Manoel Vieira, grande incentivador e motivador do Carnaval das época, Luciano Bombeiro que chegou a receber homenagem das marchinhas produzidas por artistas locais, Zequinha Lopes, “O Galã”, que mexia com o coração das meninas.

Com o início da abertura da BR 116, nos anos 60, os movimentos de lazer mudaram de local. A antiga zona boêmia que se localizava na rua Santa Luzia, denominada de Pampeiro, passa a funcionar no Bairro João de Lino, Rua Santo Antônio com o nome de Brejo. O Brejo virou referência de lazer para muitos: os peões da companhia, garimpeiros, transeuntes em geral, etc...

A tradição carnavalesca, que se iniciou no antigo Pampeiro nos anos 50, na antiga Água Vermelha e posteriormente Padre Paraíso, tem continuidade nos anos 70 e 80 com a mulinha do Manchinha que ia ao Brejo buscar as mulheres para desfilarem pelas rua de Padre Paraíso encantando e comovendo a muitos. Faz parte deste contexto, foliões como: o saudoso Banana, Antônio Moranga, Antônio Alves, Zi Preto, Osvaldo do Carmo, João de Olinto Dentista, Nega Mecânico, Bertinho do DNER, Antônio Macedo e etc...

É importante ressaltar que este bloco carnavalesco, mesmo de forma inconsciente, tornou um símbolo de resistência contra o preconceito e a exclusão social existente no nosso meio, onde alguns setores conservadores de nossa comunidade, movidos por um falso moralismo, não via nesta iniciativa um valor cultural que representasse parte da nossa história. O preconceito venceu e parte da nossa memória histórica se perdeu. Assim o Bloco da Mulinha do Manchinha deixou de existir e Padre Paraíso fica menos alegre.

Nos anos 80 e 90 os filhos dos antigos carnavalescos Olinto Dentista e Agenor Sapateiro e outros, cria em Padre Paraíso uma escola de samba de nome os Diplomatas do Samba que alegrava de forma bem humilde e entusiasta os padre paraisenses em época de carnaval. Faziam parte desse grupo: Antônio Alves, Milton Alves, o saudoso Sica de Maria de Nélson, Wilson da Copasa, Gílson de Tonico Dias, Kau de Tonico Dias, e o saudoso Toninho de Neri, Luizinho de Ana Rita, Gílson Carioca, Mazinho de Olinto Dentista, Nega de Olinto Dentista, João e Nadinho de Olinto Dentista, Cói de Raul Modesto.

Nos finais dos anos 90 e início do milênio a cultura de massa chega a nosso meio de forma avassaladora como um verdadeiro terremoto, destruindo tudo que tem pela frente: Nossos valores, nossa memória e, sobretudo, nossa identidade. O nosso samba local e as nossa machinhas, são substituídas pelo Axé da Bahia que viram uma verdadeira epidemia cultural. 

As pessoas que possuem um pouco mais de recurso procuram as praias em época de carnaval e, aqueles que não possuem esta condição, são obrigados a ver o carnaval do Rio de Janeiro e da Bahia pela televisão ou vão até Catuji experimentarem o famigerado Axé Music

Foi contra este quadro dramático de exclusão que recentemente, em 2003, saiu de Padre Paraíso um Bloco carnavalesco com o seguinte tema: “Os ricos vão e os pobres ficam!”. Os principais representantes desse bloco foram: Professor Armando, Zilene, Luizinho, Tiago e Andrea.

Tendo como referência a nossa história carnavalesca, procuramos apresentar de forma bastante simples, este pequeno texto que retrata um pouco daquilo que foi o nosso passado para compreendermos o que somos hoje e o que poderemos ser no futuro. Dependendo sempre daquilo que desejamos construir para o futuro.

Texto: Professor Manoel Viana

Fonte: Antônio Xó, Osvaldo do Carmo, Antônio Alves e Bertinho do DNER.

MARCHINHAS DE CARNAVAL

CARAÍ

Você vai a Caraí?
Vou sim senhor!
Eu também queria ir
É sim senhor!
Mas não tenho condução
Sei sim senhor!
Ali tem um caminhão
Se é de carroceria
Assim eu não vou lá
O carro dá muito bate
Pode até me machucar
Se o chofer me der cabine
Lá, nós dois iremos juntos
E na ladeira do sapo
Trataremos do assunto.

MULINHA

Arranjei uma mulinha 
Prá brincar no carnaval
Ai, ai, ai, ai, ai, ai

As orelhas são de mola
E o rabo de jornal

Ê, ie, ie, ia, ia. ia
Montada na mulinha
Devagar eu chego lá.

O BODE VERDE

O bode verde (bis)
Só toma quem pulmão
Se eu pegar esse pipote (bis)
Eu dou pinote até cair no chão

Quem toma o Bode verde
Chama Lulú de Lelé
Quando eu tomo o bode verde
Eu fico louco quando vejo
Uma mulher

Se eu levar você no brejo eu deixo lá
O menos que acontece é jacaré lhe pegar
Lá tem jacaré de seda que
Finge ter amor
Pega em qualquer anzol
E arrasta o pescador

Eu estou te avisando
Não vai nessa conversa que
Cavalo é Luciano.